Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Matadouro

"o de que precisais é procurar que a vossa história se apresente em público escrita em estilo significativo, com palavras honestas e bem colocadas, sonoras e festivas em grande abastança, pintando em tudo quanto for possível a vossa intenção, fazendo entender os vossos conceitos sem se tornar intrincados, nem obscuros. Procurai também que, quando ler o vosso livro, o melancólico se alegre e solte uma risada, que o risonho quase endoideça de prazer, o simples não se enfade, o discreto se admire de vossa intenção, o grave a não despreze, nem o prudente deixe de gabá-la. Finalmente, tende sempre posta em mira derribar a mal fundada máquina destes cavaleirescos livros aborrecidos de muita gente, e louvados e queridos de muita mais; se conseguirdes fazer quanto vos digo, não tereis feito pouco."

Trecho retirado do Prólogo do livro de um filho da puta chamado Miguel de Cervantes Saavedra uns 400 anos atrás.

Depois de ler esta breve explicação, resta-me calar e observar o gado pastando.

Domingo, 16 de Março de 2008

ÁGUA GELADA

Parece estranho um escritor com blogue que quase não escreve no próprio. Minha última atualização foi em novembro do ano passado.

Estava eu ali embaixo escrevendo sbore um feriado com o Lorenzo ou sobre nossas aventuras em Buenos Aires em setembro. Ainda voltarei a falar sobre Buenos Aires. Sim. Eu não sou um sujeitinho de me deslumbrar. Pelo contrário. Perco oportunidades por ser assim, meio desdenhoso sem querer. Só que Baires foi foda. Eu me adaptei em uma semana. É simples. Uma cidade fumante, bebum, arborizada e que os motoristas pilotam alucinadamente? É Porto Alegre melhorada. Ou piorada, como queiram.

Nesses meses tive um instante de sossego em que tive chance de ajustar as idéias e iniciar a escrite de umromance. O romance. Um retrato da doença portoalegrense dos anos 2000. E mais não falo. Somente que numa manhã insone esperando ser atendido na sobreloja da Receita Federal, os números com letras piscando na tela lentamente para chamar os sortudos que serão atendidos por um fiscal da Receita geralmente mau humorado e desinteressado. Pois nesse tempo de paz, sem filho me puxando pelas calças, sem mulher reclamando atenção, sem cliente pentelhando, sem família arranjando problemas, sem cerveja e comida por perto, só eu, um bloco de papel, uma caneta e o plim-plim do atendimento no aparelho de televisão, foi que rabisquei meu mapa de romance. Eu chamo de mapa pois tem indicações, números, caminhos, retornos, mas tudo pode se alterar de acordo com o clima, com as condições da estrada, etc. Escrevi pouco mais de dez por cento do que o previsto.

Pouco se considerar a velocidade com que costumo escrever quando estou inspirando, com tempo de sobra e sem ser perturbado durante o processo da escrita. Cerca de 1500 a 2000 palavras de uma só vez. Eu sempre contabilizo para ver se existe um padrão. E existe. Quando chego nas 2000 palavras, canso, tenho que deitar, assistir um filme barato, de preferência um faroeste, ou uma partida de futebol, apesar de ultimamente eu ter procurando encontrar jogos de rugbi. Eles são bem instrutivos pois são a mistura certa de instinto animal e tática de guerra. Mais ou menos como atuam as mulheres, mas deixemos esse assunto para outra hora. Se eu já não estivesse perto dos 40 e barrigudo procuraria uma "escolinha" de rugbi. Deve ser divertida a pancadaria.

E tudo isso se explica, eu voltar a escrever por aqui, tentar retornar à literatura, coisas do gênero, em ajeitar os horários com o senhor Lorenzo. Pois não é que depois dele chegar no limite do nosso limite, meu e da Betrine, que é bem alto, diga-se de passagem, alcançou o máximo ao dormir num dia das 5 da tarde até a meia-noite e depois ficar acordado da meia-noite até as duas da tarde do outro dia. Sério! Não exista quem suporte tamanha confusão de horários. Tanto que ele acabou virando o fuso. E faz uma semana que ele dorme EXATAMENTE às 9 e meia da noite e acorda pontualmente às 9 e meia da manhã. E cochila das 3 às 4 da tarde. Esta mudança exigiu duas mudanças radicais de hábito.

A Betine agora acorda de madrugada, às 9 da manhã, e acompanha o Lorenzo pelas manhãs. Eu me exijo dormir cedo para estar inteirono outro dia e segura a onda do Lorenzo querendo dormir tarde. Tanto que na primeira noite, quando ele tentou se rebelar cochilando mais de duas horas (o limite agora baixou para uma, com uma sobra de quinze minutos por aí), eu tentei de tudo para acordá-lo e ele não quebrar o fuso de novo. Belisquei, berrei, carreguei no colo, ofercei coca-cola, bombom, passear, fiz cosquinha,incomodei de TODAS as maneiras possíveis. Menos uma.

Jamais tinha eu feito isso com qualquer pessoa. Mas, em última instância, sem ter para onde apelar, abri a geladeira, retirei uma garrafinha de água gelada, destampei, fui até o berço e mirei bem na cara do Lorenzo. E tchá! Um jato de água gelada na cara dele. Eu não acreditei. Funciona! E o que é pior. Ou melhor. Ele ainda acordou de bom humor. Sabem aquele instante que tu nota que foi vencida uma barreira? Naquele instante eu me dei conta. Cara, isso também é ser pai. Tomar uma decisão, mesmo que parecendo maldosa, pelo bem do teu filho e das pessoas que o rodeiam.

Tanto que hoje de tarde matutei comigo mesmo. Agora que ele está perto de fazer dois naos é que estou ficando bem treinado e experiente. Como eu sou primogênito, concluí. Obviamente é por isso que os mais velhos e os filhos únicos são mais "doidos" ou mais "espertos" que os mais novos numa família de mais de um irmão. Os outros, coitados, pegam os pais mais treinados, ou cansados, e torna-se ou tudo mais regrado, e eles não ficam doidinhos, ou tudo mais calmo, e eles são tão rebelados. Claro que é uma regra geral, mas é de se pensar no entorno dessas conclusões.

Obviamente sobra um tempinho para que eu consiga voltar a escrever mais. E, para um escritor como eu, tempo de sobra é 90% do trabalho. O resto fica por conta da minha imaginação.

Marcelo Benvenutti, pai do Lorenzo.

(abaixo a foto dos dois numa improvável tarde no parque)

Sábado, 3 de Novembro de 2007

UM FERIADO COM LORENZO

Todos os dias das oito da noite até as duas da manhã somos nós dois aqui neste apartamento ou onde quer que a gente vá. Mamãe Betine está trabalhando e os homens dominam a área. Nós sentamos no sofá, o Lorenzo se permite sentar no meu colo de vez em quando, para assistirmos televisão. Assistimos futebol, de preferência Portuguesa e Gama pela Série B, Arsenal e Chivas pela Copa Sul-Americana ou algum jogo de Rugby, pena que esses só passem de vez em quando. O Lorenzo grita gol e levanta os dois braços. Ou então eu vou trocando de canais de filmes até que ele preste atenção em algum. O Lorenzo acaba paralisando em coisas do tipo Steven Seagal ou Duro de Matar. Juro. Não sou eu que escolho. É ele. Enfim.

Pois ontem de noite o Papai foi ver o time decadente dele empatar em casa com o Sport Recife e deixou o Lorenzo na casa da vovó. Depois pegamos a Betine no caminho e voltamos para casa. Lorenzo dormiu para valer mesmo só lá pelas cinco da manhã. Sim. Mas o Lorenzo faz mais de três ou quatro meses, nessas horas a gente perde a noção de dias, meses ou anos, dorme lá pelas quatro da matina, com o horário de verão, cinco. Com o pai e a mãe detonados do resto da semana e a mãe ainda tendo que trabalhar no jornal, sobra pro pai o serviço completo.

Levanto da cama às três e meia da tarde, que eu também não sou de ferro. O Lorenzo pelo jeito já estava acordado um pouquinho antes. Fica falando sozinho no berço enquanto vira de bunda pra cima e se revira no colchão. Eu nem passo pelo quarto, mas já sei o que se passa por lá. Vou para a cozinha cortar umas quatro laranjas de umbigo para fazer o suco de laranja do moço. Bato no liquidificador com água e açúcar enquanto requento uma papinha congelada com um pouco de água e sal na panela. Nós dois não sabemos cozinhar direito, então dependemos das papinhas congeladas da vovó de Bento Gonçalves, a mãe da mamãe, ou das comidinhas da Cris, a babá, que faz a ponte entre a mãe sair de casa e o pai chegar do trabalho. Confuso, não? Agora vocês entendem um pouco do horário confuso do senhor Lorenzo, como eu o chamo quando quero que ele faça algo que eu já sei de antemão que ele não vai fazer.

Tiro o Lorenzo da cama e tento fazer ele comer a papinha. Ele não quer. E berra. Ele anda chateado com um resfriado que não vai embora nunca. Berra mais ainda. Escorre água e ranho pelo nariz. Eu limpo com um pano. Ele fica brabo. Berra mais do que antes. A Betine acorda atrasada para tomar banho e chegar no jornal. Na verdade ela vai chegar no horário, mas ela foi criada em Bento, eu entendo, o pessoal de lá respeita os horários e isso é louvável. Eu não respeito. Quase sempre chego colado nos horários ou atrasado mesmo. Depois que a mãe sai decido que é hora de passearmos. O Lorenzo não foi com a cara da papinha e não adianta insistir e agüentar ele berrando de raiva. Pego uma mamadeira de suco, coloco ele no carrinho e vamos para a rua.

Primeiro passamos na pracinha aqui da Vicente. Muitos pais e mães, afinal hoje é feriado. Tiro o Lorenzo do carrinho para ver se ele se enturma com as outras crianças. Ele corre atrás de uma bola no meio do jogo de dois irmãos, um guri e uma guria, e logo depois desvia e vai reto em direção ao meio da rua. Eu pego ele no colo. Depois ele faz isso na caixa de areia. E na calçada da pracinha. Sempre fugindo para o lado da rua onde passam os carros. Coloco o Lorenzo no balanço e ele incrivelmente fica quieto enquanto observa um guri brincando de jogar a bola para um cachorro buscar e trazer.

Decido que a pracinha não era e vou em direção à Praia de Belas. Vejo que o parque de diversões está aberto. Penso, ingenuamente, em dar uma volta para que o Lorenzo veja os brinquedos, afinal ele tem dezoito meses e não vai ter chance de se divertir em quase nenhum brinquedo. Que nada! O parque cobra ingressos para entrar e poder utilizar todos os brinquedos. Não era assim quando eu era criança no século passado. Parque de merda. Modernidade bobalhona. Dezoito reais para passear entre uns tapumes brancos e feios? Vão se catar, não é?

Prefiro chegar no shopping. Além do supermercado, a única loja interessante aberta é uma livraria Siciliano. Só que estamos em época de Feira do Livro e eles, supostamente, venderiam tudo com 20% de desconto. Venderiam sim. Só que apenas nas compras acima de 60 reais. Baita merda. Fico observando os livros quase todos na casa dos 40 ou 50 reais e penso bem, deveria comprar dois livros para ter direito ao desconto. É ridículo. Eu não tenho verba para isso. E se tivesse não daria um real para ler sobre o livreiro de Cabul ou como deve ser interessante a vida do Edir Macedo. Bosta de cultura, quer dizer, Siciliano. Logo, entramos no Nacional e vamos direto ao que interessa ao papai. Bebidas. Os vinhos até estão baratos, afinal é costume não beber vinho quando está chegando o verão. Mesmo que o termômetro de rua marque 17 graus numa tarde de novembro, o Trapiche por 14 reais não me convence e atravesso o supermercado em direção ao lado das cervejas atrás de uma marca que só vendem por lá. Therezópolis. É uma cerveja do Rio de Janeiro. Boa. Só uma garrafinha de 600 ml já me bastaria. Mas hoje ela não está na prateleira. O Lorenzo olha para o corredor das latinhas e longs e aponta o dedo e fala: Papai! Tô frito. Meu filho já me reconhece por latinhas de Brahma. Que mundo! Pego duas pizzas congeladas para jantar com a Betine, uma caixinha de chá verde para beber gelado e um Gatorade. Não me perguntem daonde saem essas compras. Outro dia sai de noite com o Lorenzo e cheguei no caixa do Big com uma embalagem de presunto,um desentupidor de ralo, um carrinho de fricção e uma garrafa de Absolut (era meu aniversário).

Voltamos para casa. Minhas costas detonadas do troca-troca de levar Lorenzo no colo e no carrinho. Guardo as compras e tento, de novo, fazer o Lorenzo comer a papinha do mal. Ele não quer. Cospe em cima da cadeirinha. Vou até o armário da cozinha e tiro uma papinha de carne da Nestlé. Esquento um pouco e sirvo para o moço. Ele devora tudo. Tenho vontade de dar uns tapas nesse malandrinho. Óbvio que não darei, mas ele é muito esperto e sabe quando estão tentando lhe empurrar porcarias. Ou o que ele considera porcaria. Depois quando ele vai abrir a geladeira pela centésima vez seguida, eu tiro o antigo trancador de portas para bebês safados por um novo, mais resistente, e fechona parte mais alta da porta. Ele não consegue abrir. Me ordena que eu abre. Eu não abro. Ele berra mais alto. Vai até o canto onde ele se enfia na cozinha, embaixo do tanque e se acoca. Faz cara de que faz cocô. Ele faz cocô. Ele fede a cocô. Ele fez cocô. Quando troco a fralda ele mexe as pernas e se suja ainda mais da merda meio mole, ele anda ruinzinho mesmo, e eu me irrito e coloco só a fralda nova no lugar das calças. Deixo ele andando pra lá e pra cá e preparo o banho. Tudo transcorre normalmente no banho, enquanto assistimos Brasil e Venezuela no campeonato sul-americano Sub-15, partida importantíssima, até que após o banho, o Lorenzo se estressa com a girafa que faz barulhos quando cai uma bola e ele se ajoelha chorando do lado dela. É o sono chegando. Nove da noite. Ele chora e só se acalma quando deita de bruços no sofá e adormece comigo dando tapinhas na bunda dele enquanto eu assisto o final dos Bacyardigans no Discovery Kids. Muitas vezes acabo assistindo até o fim os episódios repetidos das animações do Discovery. Ajeito o mocinho no berço e termino de beber minha Pilsen que me esperava na geladeira. Quase durmo na frente do computador enquanto conto as novidades para a Betine no MSN.

O Lorenzo levanta só às onze e meia da noite depois de ficar mais de meia hora me embromando cada vez que eu tentava tirá-lo do berço. Ele dizia: Não! Puto! É, a vovó de Porto Alegre ensinou palavrões pra ele. Fala na seqüência “sai chata, boba e cu”. E se pilharem, engata um “merda”. Finalmente está chegando a hora da mamãe voltar do trabalho, não sem antes o Lorenzo berrar por um bom tempo por qualquer coisa que o contrarie, eu deixo por conta do resfriado, coloco Sorine no nariz remelento dele e o guri vai se acalmando. Ele é de índole zombeteira e quase sempre bem-humorado, a não ser quando acorda, mas quem não é mau-humorado quando acorda? Misturo Coca-Cola com vodka, minha única refeição foi pão com queijo e maionese e um pacotinho de Pastelina durante todo o dia, e o Lorenzo come um pote de iogurte com laranja e mamão, reclama compulsivamente da porta da geladeira trancada, esconde os carrinhos embaixo do sofá e pede para entrar no cercado enquanto joga todas as bolinhas de plástico para fora quando está do lado de dentro, obviamente. O Lorenzo está imundo de novo, eu estou suado e cansado, apesar do friozinho de primavera, a televisão exibe as mesmas merdas de sempre e o mundo continua exatamente a mesma bosta que tem sido desde que eu o conheço. Quem se importa com tudo isso, quando tem o sorriso do Lorenzo para iluminar seus dias e tornar mais ébrias suas noitadas cansadas e destrutivas de pai de primeira viagem?

Eu amo tudo isso!

Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

A PRIMEIRA NOITE

Continuando nosso passeio por Buenos Aires.

Chegamos virados no Borges Design Hostel. Uma das coisas que aprendi é que em Buenos Aires se diz assim quando se pega um táxi ou pergunta-se como se chega em algum lugar: Paraguay, entre Thames e Borges (isso, Jorge Luis Borges é o nome da rua que até onde descobri se chamava Serrano em toda a sua extensão).

Pois o Borges Design fica numa casa dos anos 1920, de três pisos, com um elevador daqueles de abrir a primeira e depois trancar a porta pantográfica para que ele saía do lugar. Próximo do metrô (SubTe para os íntimos), estação Plaza Itália, do Jardim Botânico que tem acesso gratuito é bem bonito mesmo e a poucos quadras do furdunço da Plaza Serrano (ou Cortazar como foi rebatizada pelo povo do bairro) no bairro de Palermo, seção SoHo. Palermo é assim. Tem Palermo Soho, que é a parte do bairro onde se encontram os bares mais undergrounds (por pior que seja essa expressão) e os artistas plásticos, atores de teatro riponga, músicos, escritores e vagabundos em geral (afinal, arte não é trabalho segundo a tradição do trabalhador cabisbaixo). A outra parte do bairro, que no fim não chegamos a conhecer, é Palermo Hollywood, onde se encontram os estúdios de televisão e cinema, os bares mais badalados de artistas de TV e teatro. Foi lá que logo depois que voltamos para o Brasil, arrombaram o casarão de um milhão de dólares que o Copolla comprou e roubaram um roteiro de um filme que ele pretende fazer.E é lá também que ficam os campos de Pólo e onde se cultiva o gosto pelo Rugby, hoje em dia um esporte bem popular na Argentina, recentemente classificados em terceiro na Copa do Mundo do esporte realizada na França.

Pois chegamos no Borges Design e logo de cara descobrimos que os ocupantes do nosso quarto de casal com banheiro exclusivo (por 130 pesos por dia foi uma barbada o quarto que reservamos) ainda não tinha saído. Pior, tinham saído para passear e deixaram suas tralhas no quarto. Cansados não tivemos outra saída a não ser dar um volta no bairro e esperar que os caras de pau voltassem logo. Fomos até a loja de uma brasileira que foi entrevistada pela Zero Hora e que ficamos de levar a edição do caderno Donna sobre Palermo que a Milena, editora do caderno e madrinha do Lorenzo, acabou não enviando para a moça.

Muitos cocôs de cachorro depois voltamos ao albergue e os canalhas ainda não tinham voltado. Mais cansados ainda, e torturados pelas duas gurias que atendiam de dia e não saíam do telefone ou do MSN e quando falávamos com elas, devagar, em português o portulhano e elas respondiam em inglês, o que nos confundia ainda mais, pois entendemos quase tudo em espanhol e elas vêm com speak english pra cima de nós, porra! Decidimos que o melhor era aceitar o quarto do lado e dormir.

Dormimos até umas seis da tarde e saímos de novo, afinal não viajamos para dormir, não é? Depois de a muito custo arrancar a Betine da cama, colada que ela estava no travesseiro, fomos caminhando sem destino pelo bairro, nos perdendo entre as ruas com nomes de países da América Central. Guatemala, El Salvador, Costa Rica, Nicarágua. Basicamente nestas quatro ruas e nos cruzamentos com Borges, Thames e Malabia é que se desenrola a balbúrdia de Palermo Soho. Muitas lojinhas de roupas. Roupas de bebês. Roupas femininas. Roupas de homem. Lojas gays. E, finalmente, Plaza Serrano, uma praça circular rodeada de bares e lojas que têm bares dentro. Sim! Dá para olhar roupas e encher a cara ao mesmo tempo. E na rua muitas feiras de todo o tipo de roupa feita pelos designers (outro sinônimo de artista por lá) de Palermo.

Bom, a parte do parágrafo acima eu dedico à Betine. A parte que me interessa veio mais tarde. Com fome e sedentos de cerveja, pelo menos eu estava, entramos em um bar na Praça mesmo, não recordo o nome agora, mas logo procuramos o setor fumadores, que neste bar por incrível que pareça era menor que o de não fumantes (diferente de quase todos os outros que entramos, onde o setor de fumantes era bem maior).

Para começar os argentinos gostam de cerveja mais suave. A Quilmes é fraquinha, quase um guaraná para bebum. A Brahma fabricada por lá é mais adocicada. Nos restava pedir uma Stella ou uma Heineken. Na falta de Heineken no bar não foi difícil pedir uma Stella de litrão (960ml para ser mais exato, 11 ou 12 pesos a garrafa no bar). Que cerveja! Enquanto isso, nos fazendo entender pela garçonete (o que é mais interessante, os homens argentinos entendem muito mais o português que as mulheres. Elas falam rápido demais e acho que não se entendem nem entre elas, as mocinhas de mãletis e caras afinadas de ascendência italiana e espanhola) pedimos uma pizza e uma cebola frita para aperitivo. Só que a cebola chega junto com a pizza.

A pizza portenha é quase como a porto-alegrense e diferente da brasileira em geral (leia-se paulistana). A massa é mais grossa e mais bem cozida que a de Porto Alegre, o que eu gostei claro, porque era sequinha nas bordas e levemente cheia no meio. E, como nosotros gaúchos eles colocam tudo na mesa para acompanhar a pizza. Ketchup, maionese, azeite, mostarda, só faltou pimenta. Enquanto a Betine inventou de tomar uma Guiness (14 pesos, preço honesto, mais barato que no super em Porto), eu inventei de querer descobrir o que era o tal de porrón artesanal. Que idéia cagada. Porrón é long neck e a cerveja artesanal que escolhi, pelo nome, Barbarossa, com um pirata, claro!, no rótulo era horrivelmente frutada. Bah, tenho pavor de cerveja frutada. Mas como bom bebum tomei até o último gole aquela desgraça de 8 pesos (o que até não foi um prejuízo dos maiores).

De barriga cheia e levemente alcoolizados voltamos ao albergue dispostos a recuperar o sono perdido, acordar lá pelas 10 da manhã e fazer o roteiro de turistas que tínhamos programado durante um mês inteiro. Tremendo engano para dois boêmios. No albergue encontramos o Itamar, um carioca que estava hospedado lá, e a Mara, uma moça de Natal que também aportava por lá. Começamos a beber Heineken e Brahma com eles e o salão do albergue foi se enchendo de colombianos, suiços, holandeses, norte-americanos, dinamarqueses, etc. Um dos donos do albergue convidou o pessoal para uma festa na casa de uma amiga, uma open house dessas, e que nós só tínhamos que levar a bebida. Que idéia! A Betine já estava mandando ver nuns Gintônicas e enquanto os outros levavam Brahma de litrão para a festa nós inventamos de comprar por 40 pesos uma garrafa de Gin e uma garrafa de tônica.

Depois de salvarmos o americano de Massachussets, e de ele me explicar como se fala Massachussets sem errar como fazem os caras no Fantástico quando falam do MIT, chegamos de táxi na casa da guria que não sabia daonde tinha saído aquele zoológico internacional. O gelo da casa ficava na banheira e por mais que ninguém acredite no Brasil, ninguém tinha mijado na banheira cheia de gelo. E foi de lá que retiramos o gelo para o nosso Gintônica dançante. Um terror! No final mamamos a garrafa de Gin e a de tônica estava pela metade. Dançamos, fizemos fiasco, voltamos pela rua cantando San Lorenzo (o time de futebol, atual campeão argentino, que tinha sede originalmente em Almagro, bairro vizinho a Palermo) e, no albergue, ficamos conversando e acabando com o freezer de cervejas até às oito da manhã. Parecia que tínhamos retornado uns 15 anos no tempo e voltávamos de Imbé depois de uma noitada e acompanhávamos o sol nascendo no mar barrento de Tramandaí. Os assuntos que lembro agora não interessam muito (lembro de falar sobre a diferença das argentinas e das brasileiras com o hincha do San Lorenzo) e fica na memória uma noite muito divertida na companhia de nossos amigos brasileiros, das gurias de Barranquilla e de Jacob, o dinamarquês que andava pra lá e pra cá com um abrigo do Boca Juniors.

Ah, sim, O dia seguinte. Depois de sermos acordados pela argentina doida da recepção diurna berrando checkin checkin no corredor ao meio-dia, para tomarmos conta do nosso quarto reservado e liberarmos o quarto aonde dormimos, só levantamos depois das 4 da tarde. Roteiro suspenso.

(continuo qualquer outra hora em que estiver disposto e o Lorenzo me deixar dormir mais que 3 horas seguidas)

Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

CARLITO

Mal chegamos à Buenos Aires e a Betine louca por um cigarro larga na minha frente após esperar que eu praticasse meu primeiro ato na capital argentina; cagar no banheiro do desembarque. Chegamos na área dos táxis e aquele acúmulo de homens hablando castejano (vou escrever como eles falam por aqui) e perguntando para aonde iríamos. Nós pesquisamos antes para não sermos enganados nas corridas de táxis. O primeiro taxista, ou motorista de remis que são “taxistas” sem bandeira que fazem uma corrida acertando antes o valor, nos diz que vai cobrar 75 pesos de Ezeiza até o bairro de Palermo. A Betine continua fumando e então vem outro. Um nariz enorme de bolota cheio de desenhos nas rugas aparece na minha frente. Para onde vocês vão? Palermo, respondo. Que altura? Paraguay, 4539. 65 pesos, responde o remisero (acho que é assim que se chama). Eu olho desconfiado e ele continua. No equisiste más econômico! Los otros vão pelo centro e eu sei o caminho certo. A Betine faz sinal que ainda está fumando. O remisero tasca de volta. Podes fumar no meu carro. A Betine sorri. Agora eu sei que ela vai adorar Buenos Aires.

Na tosquice do entendimento dos porteños com o português nos resta entender quase tudo que o remisero fala e ter paciência para que ele nos entenda. Mesmo sendo eu um desligado de marca maior. Logo de cara ao entrarmos no Renault esbodegado do cara, um chapéu de malandro argentino no banco de trás, eu mexo no casaco e o motora olha pelo retrovisor e fala: se quiere retirar lo saco, puedes retirar. Esqueço momentaneamente minhas aulinhas de espanhol no Google e faço uma cara estranha até a Betine me lembrar que saco é casaco, anta porto-alegrense.

O remisero abra as janelas não se importando com o frio de 13 graus da manhã e vai acelerando pela auto-pista. Aca fica la AFA onde treinam os jogadores de la seleción. Eu admiro a informação, nem tanto a Betine. Mais adiante ele explica que Ezeiza fica a 38 quilômetros de Downtown. Esses argentinos fazem uma confusão na cabeça do cara. Não entendem nada de português e falam com a gente misturando inglês com o castejano arrevesado deles. Eu pergunto. E do centro, pra ele ver que eu sei que centro é centro e não Downtown de gringo, até Palermo, quantos quilômetros são? De centro até Palermo, responde ele, são 15 minutos de Subte (o metrô deles) ou 30 minutos de ônibus, colectivo me acentua como se eu não soubesse o que é ônibus. Eu repito a pergunta. Quantos QUILÔMETROS? Ele responde a mesma coisa. Desisto.

Lá pelas tantas chegamos no primeiro pedágio. O motora paga e eu vejo que o peaje (peárre ele corrigi minha pronúncia) custa 70 centavos de pesos. Eu explico que de Porto Alegre até las playas (ou plajas, não sei mais) numa estrada parecida com aquela, pagávamos cerca de 10 pesos. Ele faz cara de espanto e logo adiante sai explicando que de um lado se vai para o Autódromo e mais adiante se vai para La Plata. La Plata de Estudiantes, pergunto. Si, responde ele. Daí não me agüento e continuo. E usted és hincha de que time? Ele demora para entender meu castejano de araque e responde: Independiente! Não me agüento e mesmo correndo o risco de levar uma bolsada da Betine continuo. Independiente de Burruchaga! Fez o gol em Grêmio dela em 1984. Independiente campeón. Era o que faltava para o remisero se abrir. Si. Independiente! E puxa um jornal, jô soy Carlito e mira quem está acá. Na capa do Diário de Deportes, um Diário Gaúcho só de futebol de lá, está Carlito de uniforme levando o Messi do Barcelona na saída do Aeroporto. Ele sorri. Maradona me pediu para que fosse buscar Messi. Messi é meu amigo. Maradona, Maradona é meu amigo! Por mim a viagem já está paga só em escutar as histórias desse Carlito. Ele é mais ou menos como se fosse o Paulo Sant’Anna só que com o nariz mais deformado do planeta. É uma figuraça. Aumenta o volume do rádio que toca tango e me pergunta se sei bailar. No. Jô no lo se. E te gusta tango? Largo um si meio tímido. Eu gosto das letras de desgraça e vingança e dor de corno. São as mesmas do samba dor de cotovelo. Ele não se agüenta mais no banco da frente. O locutor desta rádio é meu amigo! Esse Carlito é demais! É o cara! No final, sem trocado, deixo 70 pesos pela corrida e ele nos dá o telefone dizendo que na volta nos cobrará 55 pesos se combinarmos um dia antes. Nós, bêbados pelas noches e insones de dia, não ligamos. Mas fiquei triste de não terminar minha primeira viagem até Buenos Aires com meu amigo Carlito. Amigo de Messi! De Maradona! E do locutor da rádio! Puta madre!

Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Brinquedos Educativos

Quando a Betine estava grávida já pesquisava sobre brinquedos educativos, gostava de comprar pros filhos das amigas e ficava planejando os brinquedos que compraria pro Lorenzo. Eu nunca me importei muito com todo esse planejamento, como de resto não me preocupo muito em planejar nada, deixo as pedras rolarem diria o chato do Bob Dylan.
Pois depois que o Lorenzo começou a brincar com algo mais que coisinhas que fazem barulho a mamãe presenteou ele com brinquedos educativos, pricipalmente esses da Fisher Price. Quem conhece sabe do que estou falando.
Mas a verdade é que o Lorenzo, e acredito que grande parte dos bebês, não dá a mínima para a função educativa dos tais brinquedos. Ele simplesmente aniquila os brinquedos. Deliberadamente. Eu compro carrinhos vagabundos made in China e adjacências. Daqueles de fricção e que custam 5 reais. E ele adora! Não que a mamãe tenha errado na pontaria, bem que ela tentou, mas a verdade é que o Lorenzo curte mesmo é os brinquedos da Trasher Price.
Hoje cheguei em casa com dois novos brinquedos que ele amou. Um telefone quebrado e um mouse que não funciona. Só me preocupei em tirar a maldita bolinha do mouse e dar uma espanada nos dois. Depois ele, educadamente, aprendeu que a frigideira não entra na máquina de lavar. Ficou meio triste por ter que colocar lá dentro só a embalagem do iogurte, um pano de prato, uma colher e restos de pão Seven Boys. Depois ele fez uma arrumação nova no centro da sala. Até tirei uma foto (aí acima) para vocês verem como é arrrtista esse nosso filho. Vão dizer? Mais um pouco e já está expondo na Bienal, não é?

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007

VEM MEGA VEM

Fico eu aqui, entre a papelada que o Governo e a Receita Federal inventam para piorar cada vez mais a vida dos pequenso empresários de dia e o Lorenzo querendo brincar de noite, mais trocar fraldas, tentar dar a comida que ele tem que comer e não a que ele quer e ainda ouvir a Betine resmungando que tá cansada quando chega em casa (ninguém mandou ser jornalista), arranjando tempo para escrever na hora do almoço.

Se tenho idéias ou vontade para escrever? Muita. Mas e tempo?

Muito tempo atrás li uma frase de Gore Vidal que era mais ou menos assim (não vou transcrever certinho que isso daí é coisa de nerd e mala):

O escritor trabalha para comprar tempo para escrever.

E é isso daí mesmo. Ou o sujeito é rico. Ou se arrisca a ser socialmente vadio, afinal para a sociedade escrever não é trabalho, e passar fome por algum tempo. Ou vira um baba-ovo certeiro do marketing pós-moderno literário.

Para ser rico existem três alternativas. Ou já se nasce numa família rica, o que não é o meu caso. Ou se nasce mulher, gostosa e puta na medida certa, o que também não é o meu caso. Não sou mulher, muito menos gostosa, mas talvez até fosse puta, mas não na medida certa, óbvio. E, por último, o sujeito ganha sozinho na Mega. Essa alternativa ainda está em aberto. Mas é totalmente incerta por razões matematicamente explícitas.

Eu tentei ser socialmente vagabdundo e só me dedicar a escrever. Mas pelas razões acima (eu não sou rico), desisti porque minha família me ensinou a trabalhar e a não ser egoísta (péssimo recado nos dias de hoje), apesar de ser extremamente individualista, o que me leva a não saber trabalhar diretito coletivamente e a ser tendenciosamente ditatorial e democrático quando os interesses são os meus, claro! E ainda mais, agora sou pai e me sinto no dever de garantir o bem-estar do meu melhor amigo Lorenzo, afinal ele ainda tem o direito de ser criança e não fazer nada (direito de toda a criança é ser criança).

E, por último, eu poderia ser um baba-ovo marqueteiro, alternativa da qual já desisti faz algum tempo. Tal qual um Mr. Hyde escondido nas entranhas, quando estou prestes a ser aceito na comunidade editorial e literária se revela o lado negro da força benvenuttiana (eu mesmo já criei meu universo próprio, o que seria algo essencialmente megalomaníaco se não fosse verdade, obviamente) se liberta e causa estragos irreparáveis em tudo que está à sua volta.

Tenho consciência de tudo não é? Poderia tentar ser diferente, pois não?

Sim!

Mas a vida seria uma chatice interminável.

Ainda prefiro as aventuras!!!

Ou a Mega-Sena acumulada.