quarta-feira, 16 de maio de 2007

Solidão

Escrever é um ato solitário. Talvez o mais solitário de todos os atos que o ser humano desenvolveu. Mesmo que o escritor esteja cercado pelos amigos ou pela família. Mesmo que tudo à sua volta conspire à seu favor. Que ele não passe necessidades. Tenha boa saúde. Seja amado.

Escrever é um ato solitário. O ato de criação literária funciona como um transe para outra vida. Outra existência. Um plano perdido dentro da alma do escritor. A utilização da técnica só se faz necessária nos ajustes. Ou o escritor corre o risco de não fazer literatura. Corre o risco de ser apenas um bom redator. Um bom jornalista. Um bom contador de histórias.

Escrever é um ato solitário. Por mais leitores que o escritor atinja com seu texto. Por mais tênue, ou profundo, ou simples, ou confuso que seja o texto. Por mais realizado que o escritor supostamente acredite estar, ele não vai estar.

Escrever é um ato solitário. E viciante. E não traz felicidade. Talvez, em alguns momentos, o escritor sinta-se eufórico. Extasiado. Alegre. Mas jamais estará satisfeito. A satisfação não combina com a literatura.

Escrever é um ato solitário. Não posso compartilhar. Não posso dividir minhas angústias. Não consigo discernir minha dúvidas. Apenas escrevo e sinto e elaboro e aparo as arestas, defino as linhas, desenho os contornos e intensifico as cores.

Escrever é um ato solitário. Masturbação diurna antes do trabalho. Um sonho erótico com alguma menina que não lembramos mais o nome (ou não queremos lembrar). É a dor que não deixamos que os outros vejam, mas vêem, e sofremos mesmo que seja tudo parte de uma grande farsa.

Escrever é um ato solitário. Tão solitário que eu não deveria estar compartilhando com vocês, mas compartilho. Pois se não colocar em palavras e mostrar aos outros o que sinto, penso, sonho, devaneio, dentro do limite entre o real e o imaginário que povoa minha alma e minha existência, sentirei-me ainda mais solitário.

Escrever é um ato solitário. Paixão instintiva. Liberdade de sorrir. Prazer inconsequente. Desistência de sofrer.

Escrever é um ato solitário.

Amar, coletivo.

3 comentários:

O BACANA disse...

Viver não combina com satisfação. É o que se busca... É como escrever, existem momentos de euforia, como nas drogas.
Satisfação completa, aquela eterna, que nos fizeram acreditar que existe, nao. Ela, talvez so exista no budismo; no aprender abrir mão do resto tudo para ter a satisfação eterna. É morrer em vida, abrir mão dos sentidos carnais, das delicias da carne.
A eterna busca é a definição da própria vida.
Encontrar é deixar de viver. É colocar no passado o que deve-se fazer presente sempre.

Joe Bass disse...

Que caralho. Tô linkando o "cerveja e fradas" faz duas décadas. A madame fica aqui escrevendo confortavelmente e nao avisa nada ... francamente ...

JC Baldi disse...

Isso tá muito 'Clarice Lispector'...rs
Abração, maluco